Desendireita
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O jornal disse: Proposta sobre ‘canetada’ na Selic derruba o Ibovespa ao menor nível desde janeiro

O mercado teve uma crise de ansiedade por causa de uma reunião que não existiu

Terça-feira (3), volta do feriado de Finados, e a bolsa resolveu manter o clima de luto. O Ibovespa caiu 1,4% e chegou ao menor nível desde janeiro. O dólar subiu para R$ 5,49, a maior cotação do ano. Parece assunto só de quem investe, mas não é: se o dólar continuar subindo, a gasolina, o pão e tudo que tem uma pecinha importada ficam mais caros.

Boa parte da queda veio do petróleo. Trump disse que vai cortar o financiamento americano a Israel até o fim do ano, o medo de guerra no Golfo Pérsico diminuiu e o barril ficou um pouco mais barato, embora ainda acima de 100 dólares. A Petrobras caiu quase 4%, e como ela pesa muito no índice, quando ela espirra, o Ibovespa pega gripe. Ou seja: menos risco de guerra derrubou a bolsa. Mas “paz no Oriente Médio derruba a bolsa” não rende o mesmo clique.

A manchete preferiu outro culpado. Uma coluna d’O Globo publicou que Lula poderia se reunir com o economista André Lara Resende. Não que se reuniu. Que poderia. O ministro da Fazenda e o presidente do PT negaram qualquer reunião ou proposta em estudo. Não adiantou: o mercado entrou em posição fetal mesmo assim. Uma nota de coluna sobre um encontro que não aconteceu mexeu com a moeda de um país de 200 milhões de pessoas. Se isso é mercado racional, eu sou bailarina do Bolshoi.

Lara Resende, um dos pais do Plano Real, quer baixar a Selic de 13,75% para 7,5% ao ano em doze meses. A Selic é a mãe de todos os juros: do cartão, do financiamento da casa, do empréstimo da padaria. Ela também define quanto o governo paga a quem empresta dinheiro a ele.

O argumento dele é simples: o juro alto é o que mais faz a dívida pública crescer. Na prática, é uma transferência de renda de baixo para cima: o imposto que todo mundo paga, inclusive o que vem embutido no preço do arroz, vai parar no bolso de quem tem dinheiro aplicado em títulos do governo. Até o único economista ouvido pela matéria admitiu que, matematicamente, o juro alto infla a dívida. Depois mudou de assunto.

Os críticos da proposta responderam com o cardápio de sempre. O primeiro prato é dizer que o juro é um preço de mercado e que quem o define, no fim, é o credor. Só que a Selic é decidida por diretores do Banco Central, o Copom, em reuniões oito vezes por ano. É menos lei da gravidade e mais reunião de condomínio. E “o credor” são bancos, fundos e gente com muito dinheiro aplicado. Dizer que o credor decide é um jeito educado de dizer que quem tem dinheiro decide quanto você paga pelo seu.

Outro prato é o alerta de que, com juros menores, os investidores fugiriam do país e o Banco Central teria que queimar as reservas para segurar o dólar. As reservas internacionais, um colchão de 350 bilhões de dólares, existem justamente para proteger o país quando o dólar sobe demais. E foram acumuladas em grande parte nos governos Lula dos anos 2000. O risco existe, mas a pergunta honesta é: quanto o país perde por ano para evitá-lo?

Há ainda a acusação de que a proposta jogaria no lixo a autonomia do Banco Central, por criar um conselho para alinhar as metas do governo e do BC. A autonomia é uma lei de 2021, e lei o Congresso aprova e o Congresso muda. Isso se chama democracia. O Brasil, aliás, já tem um Conselho Monetário Nacional, que define a meta de inflação. E autonomia em relação a quem? O Banco Central ficou independente do voto, mas não é raro que seus diretores venham do mercado financeiro e voltem para ele depois. Independente do povo, íntimo dos bancos.

Também lembraram que experiências parecidas deram errado na Turquia e no Brasil dos anos 1980. Os dois casos tinham inflação muito maior do que a atual. É como proibir um copo d’água porque alguém já se afogou no mar.

E, por fim, o clássico: os juros seriam altos porque o governo gasta demais. Entre o fim dos anos 1990 e meados dos anos 2010, o governo arrecadou mais do que gastou, sem contar os juros, por mais de dez anos seguidos. Os juros caíram, mas seguiram entre os mais altos do planeta. E, se falta dinheiro, os super-ricos pagam proporcionalmente menos imposto do que a classe média, e o imposto sobre grandes fortunas previsto na Constituição de 1988 nunca saiu do papel.

A Cogna, de faculdades particulares, caiu mais de 12%. Juro alto encarece o financiamento do aluno e as dívidas da empresa, e as ações ainda foram rebaixadas por casas de análise. No total, 55 das 76 ações do Ibovespa caíram.

O entrevistado chamou a proposta de “balão de ensaio”. Ela pode ter problemas e merece debate sério. Mas uma ideia desmentida pelo próprio governo foi tratada como ameaça nacional. Se juros altos custam tanto ao país, a pergunta não deveria ser “por que alguém ousou falar em baixá-los?”, e sim “por que ninguém fala?”. Talvez porque quem ganha com o juro alto também é dono de boa parte do microfone.

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